O gato preto

O gato preto chegou numa caixa de sapato todo miúdo e encolhido. Não se via nada além dos olhos amarelos e os dentes brancos toda vez que abria a boca para miar e reclamar. Nunca havíamos tido gatos em casa então reinava o preconceito geral de que gatos não eram confiáveis, não se apegavam aos donos e estavam interessados apenas em comer e dormir.
Decidimos lhe dar uma chance e os anos provaram que não, gatos não são nada confiáveis, mas sim, eles se apegam aos donos. E realmente, só querem comer e dormir. Aprendemos ao longo de 16 anos o quanto os gatos... ou pelo menos o meu gato... se apegam aos donos.

Se me pedissem um adjetivo para o Neguinho eu diria que ele era um gato arisco. Não era muito adepto dos carinhos demorados e só gostava realmente de duas pessoas de casa, eu e minha mãe. Os demais ele tolerava. Estranhos ele ignorava. Crianças pequenas, maltratava. Outros animais domésticos que tivemos, como os peixes e a Sandy, ele retalhava com as unhas.
Mas além de arisco, Neguinho era companheiro. Até começar a ficar realmente mal de saúde, ele me acompanhava todos os dias até o elevador antes de eu sair pela manhã. Podia ouvi-lo miando, se despedindo, enquanto eu descia até o térreo. E quando chegava, lá estava ele, no topo do sofá ao lado da porta, miando para me receber. Passeava pelas minhas pernas, pedia um afago e retribuia o carinho com uma mordida na mão. Minhas mãos e pernas expunham seus arranhões e mordidas como a tela de um artista ao longo desses anos todos. Neguinho não sabia brincar e, às vezes, sua demonstração de carinho doia. E bastante!

Acho que como todo gato, ia elegendo pontos da casa que seriam sua cama. O canto do sofá. Uma das cadeiras da mesa de jantar. O colo de minha avó. O travesseiro de minha mãe. A ponta da minha cama. Nos dias de frio, pulava na cama e, com a pata, puxava o cobertor para conseguir se aninhar em meus braços. No calor, ficava debaixo do ventilador como se esperando concentrar em si todo o vento produzido.
Mas, na sua concepção de casa, o banheiro era o seu lar. Era lá que ficavam sua comida e areia. Qualquer pessoa que fosse usar o banheiro era acompanhada pelo Neguinho que, às vezes, apenas sentava ao lado de seu potinho vigiando-o, esperando que alguém ousasse lhe roubar a comida. Desenvolveu toda uma técnica em que jogava a ração no potinho de água e, em seguida, levava a ração molhada para a boca com a ajuda da patinha. Quantas vezes não fiquei observando-o em pleno fascínio com sua esperteza?

Os anos passaram e a saúde de Neguinho foi piorando nos últimos dois anos. Seu problema renal era crônico e lhe fez perder o peso e o ânimo. Já não dava mais cambalhotas para se exibir e nem tentava abrir meu armário de gibis para arranhá-los afiando as unhas. Passava grande parte do dia dormindo com períodos em que estava melhor e outros em que ficava notavalmente abatido.
Convivi com Neguinho praticamente todos os dias de minha vida nestes últimos 16 anos. Foi um verdadeiro companheiro, quebrando paradigmas de que gatos são distantes e frios. Não consigo encontrar palavras que possam descrever a falta que sinto dele já hoje, um dia após sua partida. Tudo que posso acrescentar é que ele foi muito amado por mim e minha família e que viveu uma velhice felina feliz, rodeado de carinho, conforto e amor. Sua presença será sempre lembrada.

Agora pouco o vento abriu de leve a porta do meu quarto e, instintivamente, olhei para o chão esperando encontrá-lo me encarando, pedindo para ser pego e aninhado no frio que faz hoje em São Paulo. Será muito difícil aprender a lider com sua ausência após tantos anos de convivência...

Descanse...

Lift Him Up

Original Mix
R&B Radio Mix
Mark's Ol' Skool Mix Re-Edit
Nel's Bump & Jump Vocal Mix
Mateo & Matos Dub Mix
Splice of Life Nu Soul Mix
Splice of Life Uplifted Tribal Dubb (low quality...)
Ian Friday Tea Party Vocal Remix
Ian Friday Tea Party Instrumental Dub

1 Bilus felizes:

Marco disse...

Força Maddy ;) tb amo bichinhos e sempre tive gatos ... companhia que cura! ;)

Alô?! Maddyrain chamando!

Você acaba de adentrar as entranhas do mundo de Maddyrain, uma profissional da "náiti guêi" de São Paulo que ama house music e decidiu fazer a boazinha e compartilhar parte de seu acervo musical.

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