As bonecas

As memórias que mais me vêm à cabeça quando penso na minha infância são do tempo em que passava com minha vó quando ela vinha me visitar. Andávamos pelo bairro numa verdadeira via sacra parando na casa de todas as conhecidas dela para tomar um chá da tarde e elas poderem colocar a conversa em dia e relembrar o passado. Nessas andanças, minha vó acabou se tornando a grande figura por trás de minha iniciação no mundo dos quadrinhos. Saiamos juntos tardes a fora e ela sempre me comprava um gibi. Naquele tempo, minha perdição era parar em cada uma das bancas de jornal pelas quais eu encontrava no caminho.
Outra lembrança também sempre muito forte é a da fragrância dos frangipanis (ou jasmim-manga) do jardim da casa das Bonecas. Lembro de eu me sentar no banco de cimento com pedrinhas, perninhas a balançar e catar as flores que caiam na terra. Debaixo da árvore de frangipani minha mãe enterrou meu cordão umbilical. Vejam só que poético!

As Bonecas era como chamávamos as duas irmãs de minha vó que não se casaram e, reza a lenda, morreram virgens. Minha vó durante muito tempo não teve uma residência fixa. Perambulava entre a casa dos filhos e a das irmãs. A casa das Bonecas era enorme e ficava em Moema (bairro tradicional de São Paulo). Cada cantinho dela possuia um objeto com história secular na família. A própria casa cheirava a passado remoto e foi lá que passei muitos finais de semana de minha infância.
Chegávamos de carro e entrávamos pelo portão da garagem. Durante muito tempo, meu maior medo era o Rambo, um cachorro enorme do meu tio-avô que morava lá e que, após sofrer um derrame, só conseguia falar a palavra "caralho". Quando jovem, foi um militar importante, mas, depois de velho, acabou lhe restando apenas ficar o dia inteiro sentado numa cadeira debaixo do relógio cuco apertando a mão dos outros com força e balbuciando "caralho" vez ou outra.

Quando minha vó estava na casa das Bonecas, a casa ganhava vida. Quando moças, elas já tiveram uma cantina e as Bonecas ainda carregavam consigo as receitas de massas e sopas deliciosas. O fogão não parava. Sentávamos todos ao redor da longa mesa de jantar e, enquanto assistíamos a programação de Domingo do SBT, íamos comendo e cochilando, como se o tempo tivesse entrado pela porta da cozinha e parado ali.
Tia Thereza tinha ares de cantora. Para tudo possuia uma modinha... uma cantiga. Gostava de contar piadas e falar palavrão. Desde sempre fui criado entre palavrões como forma de expressão natural e sem preconceitos morais e sociais. Ela amava "Don't Cry for me Argentina" e lembro-me como hoje quando lhe perguntei se ela conhecia a Madonna, que havia regravado a música, e ela respondeu "Ah, aquela cantora putana?". Tia Nistina era a cozinheira. Suas massas eram sempre deliciosas. O recheio dos empadões, suculento. Amante dos animais e dos fantasmas. Afirmava com certeza que via e se comunicava com os mortos.

Mas o tempo foi passando e a vida não dura para sempre. Só sobraram as três de uma fraternidade enorme. A primeira a partir foi a Thereza, deixando muita saudade. Lembro com carinho e afeto do seu cabelo branco como algodão, dela cochilando enquanto assistia o Sílvio Santos e de suas cantigas sacanas cheias de duplo sentido.
Alguns anos depois, a Nistina foi cada vez mais se aproximando do mundo de seus amigos que por tantos lhe acompanhavam e faziam companhia. Certa vez, eu e minha mãe decidimos ir visitá-la após milênios sem irmos à casa das Bonecas. Batemos palma no portão e quem veio nos recebere foi o fantasma da Tia Nistina que conhecíamos. Completamente encurvada, a cara escondida entre os cabelos grisalhos e bagunçados. Não nos reconheceu. Entre lágrimas, tentamos relembrá-la de nós. Por um segundo, seus olhos brilharam e ela se lembrou de minha vó, mas avisou que precisava voltar para dentro da casa porque as crianças estavam lhe chamando. Queria ter uma lembrança mais feliz de nosso último encontro... Minha vó nunca soube da morte dela. Quando perguntava, respondíamos que ela morava num asilo em Santos. E, após pouco tempo da partida da Tia Nistina, num dia chuvoso e em que eu esperava para ver minha grande musa inspiradora ao vivo (e na pista VIP), a Madonna, ela também fechou os olhos e foi ao reencontro das Bonecas e de todos os outros tantos irmãos.

Sempre que encontro um frangipani caído pelas ruas da cidade me agacho para pegá-lo e sentir seu forte e doce aroma. Não consigo não lembrar das Bonecas, de sua casa e dos bichos que lá habitavam. Volto no tempo e sento-me novamente no banquinho de pedra e vejo as flores caindo na terra. Consigo até ouvir a voz do Sílvio Santos vindo da TV antiga da sala. Sinto o cheiro do ravioli sendo preparado no fogão. O vento bate e sei que eu também um dia fecharei os olhos e reencontrarei pessoas tão amadas...

Um beijo com muita saudade e carinho para as Bonecas...

Wish I Could Fly

Radio Edit - Fade Out Version

Spanish Version - Quisiera Volar

Demo, Nov. 1997

Live at St. Petersburg 2010
Tee's In House Mix

Tee's Radio Mix

Stonebridge R&B Mix

Stonebridge Club Mix

Stoney's Dub Trax
(low quality...)

I wish I could fly out in the blue...

Chupa meu edy nas alturas:
A estreia do Roxette aqui no meu blog não podia ser num dia mais especial que este. Roxette sempre será uma das minhas bandas favoritas e "Wish I Could Fly" me cativou desde a primeira vez que a escutei lá na casa das Bonecas. Lembro que assisti o clip na MTV que nem pegava bem na antiga TV delas, mas dava pra escutar bem a música. Fiquei apaixonada. E sou até hoje. Podem pegar o Radio Edit - Fade Out Version. Muito linda e super recomendo.

Os poucos remixes de "Wish I Could Fly" nunca chamaram muito a minha atenção talvez por eu gostar tanto da original. O sumido
Todd Terry não acertou a mão e juntou às suas batidas de sempre um vocal desacelerado. Peguem o Tee's In House Mix e tirem suas próprias conclusões. O Stonebridge fez dois remixes diferentes, mas nenhum muito bom também. O Stonebridge R&B Mix não é tão R&B como gostaria de ser e eu provavelmente gostaria mais dele se ele de fato tivesse o pé na cozinha. O Stonebridge Club Mix fez exatamente o oposto que o Todd Terry fez com o remix dele: acelerou demais os vocais da Marie, deixando tudo meio frenético. Resumindo, seria melhor se o single tivesse apenas a versão original, a instrumental e algum lado B pra agradar os fãs de carteirinha...

2 Bilus felizes:

Genesis disse...

Ótimo texto e ótima escolha de música! Parabéns!

Maryna Lira disse...

Adorei o texto. Confesso que cheguei a me emocionar. Perdi uma pessoa muito querida recentemente e esse texto realmente mecheu comigo. Adoro o seu blog. Parabéns :)

Alô?! Maddyrain chamando!

Você acaba de adentrar as entranhas do mundo de Maddyrain, uma profissional da "náiti guêi" de São Paulo que ama house music e decidiu fazer a boazinha e compartilhar parte de seu acervo musical.

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