Chuva

Quando chove, olho pra cima e xingo quem tá de brincadeira comigo bem no dia em que eu tô a pé e carregando a casa na mochila. Tudo vai molhar, o sapato vai virar aquário, a calça vai pesar, o carro vai passsar e jogar água em todo mundo. Isso sem falar na cidade que para completamente pra ver a chuva passar, cantando coisas de amor. A chuva acaba sendo tão inconveniente na correria do dia-a-dia que ninguém percebe há quantos dias não chovia. O quão seco estava o ar ou a água que tava faltando pra regar os jardins e parques da cidade. O ônibus vira sauna, com todo mundo enclausurado e com medo de se molhar. Se molhar com o que? Com água, minha gente. Água que seca e que, felizmente, não é ácida. Sim, porque se fosse algum outro país europeu, a chuva seria ácida. Bom, ela já é ácida aqui também, mas não como lá... Enfim, ninguém vai derreter se se molhar.

E enquanto sinto o suor formando dentro daquele ônibus lotado e fechado, vou olhando a cidade parada recebendo a chuva e lembro da minha infância, quando chover era algo gostoso e divertido. Quem nunca brincou na chuva não sabe o que tá perdendo. Ou o que perdeu. Lembro uma vez em que alagou completamente a avenida em que eu morava. Aliás, sempre alagava. Tiveram que mandar fazer umas placas de metal no meu prédio pra impedir a água de entrar e inundar o poço dos elevadores!
Mas, como eu tava falando, certa vez alagou geral a avenida. Até o viaduto tava ensopado. Os carros tiveram que parar nas ruas paralelas pra esperar a água da chuva escorrer. Ignorando todas as doenças potenciais que a água da chuva carrega, eu e meus amiguinhos do prédio brincamos no alagamento como se não houvesse amanhã. Aliás, se a água daquela chuva estivesse realmente entupida de mijo de rato, não haveria amanhã pra nenhum de nós três. Pulávamos do viaduto na água como se fosse a mais limpa e cristalina piscina das mansões, mergulhávamos de cabeça naquela coisa marrom, asquerosa e pegajosa que se dizia água sem pensar em mais nada. Voltei pra casa mais sujo do que limpo e corri pro banho rezando não ter engolido nenhum bicho morto na brincadeira.

Também nunca vou me esquecer certa vez em que eu estava no colégio e o mundo começou a cair em forma de água. Eu e mais dois amigos (que estavam de namorico) decidimos cabular a terrível e inútil aula de inglês e bater papo no pátio. Fomos recebidos com a chuva torrencial. Olhamos um pra cara do outro. Era voltar pra aula com cara de bunda ou se jogar na chuva. Não tivemos dúvida! Corremos pelo pátio completamente ensopados. A chuva era tão gelada que conversámos batendo os dentes de tanto frio. Obviamente, fomos descobertos, encaminhados pra coordenação e voltamos para casa com um longo resfriado e uma bonita "anotação na agenda". Como se uma "anotação na agenda" fosse capaz de tirar da gente aquela sensação de vitória que tínhamos ao voltarmos pra sala de aula completamente molhados e felizes.

Sempre gostei da chuva. Sempre olhei pra chuva como algo mágico e purificador. Quando entrei pela primeira vez na Internet eu nem imaginava o que era uma Internet. Nem sabia o que uma Internet era capaz de fazer. Aí minha amiga que estava me mostrando o que era uma Internet falou que eu precisava de um "nick". Ah tá! Nickname! Apelido! Rain, da música da Madonna! E ficou Rain por tantos anos. E até hoje fica.

A chuva já me viu brincar na avenida, correr no pátio da escola, cantar no show da Beyoncé, esperar o show da Madonna e chorar nos enterros de meu pai e da minha avó. Acho que a lembrança mais triste e forte que levo desses dias é justamente o momento em que começa a chover muito quando é a hora do último adeus. Sabe aquela hora em que você percebe que realmente acabou? Então... nessa hora em que você sabe que quem tá ali deitado nunca mais vai conversar com você, olhar pra você e te abraçar... nessa hora começou a chover muito forte. Choviam as lágrimas de quem ficava e de quem ia.

Os anos passam, a saudades cicatriza, a memória e as lembranças começam a pregar peças. Primeiro você esquece de todas as chateações que eles causavam... depois esquece da voz de cada um... depois não lembra mais como era o jeito de andar... no final, o que resta é a lembrança da chuva dando adeus e do espaço sempre em branco que nunca mais será preenchido.

Saudades de sentar do seu lado e cantar aquelas músicas que aprendi na igreja nos meus tempos de catequese... saudades de pedir para você me benzer... não tenho mais ninguém pra me curar de olho-gordo... Saudades...

Um beijo,
Eu...

Rain

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Radio Remix
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Remix Edit
Razor & Guido Club Mix

Your love is coming down like...

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Você acaba de adentrar as entranhas do mundo de Maddyrain, uma profissional da "náiti guêi" de São Paulo que ama house music e decidiu fazer a boazinha e compartilhar parte de seu acervo musical.

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