Uma rola entre nós

Acordei com o sol brilhando na minha cara. Irritando Maddyrain: acordar com o sol na cara ou com o telefone berrando na orelha. Acho que o telefone de quem liga devia avisar Olha, a bilu tá dormindo antes de acordar alguém. Sabe aquele cheiro de pinga que fica no ar depois de uma noite de mamada? O quarto inteiro fedia a uma mistura de pinga e morte. Super uó. Encarei o homem que queria aflorar do outro lado do espelho. A barba já tava crescendo depois de dois dias de completo esquecimento. Abri a gavetinha da penteadeira e cadê a porra da gilete? Quem pegou minha gilete?! Aim, sério que vou sair daqui parecendo a ursa maior?! Abri meu armário e coloquei o hábito no maior estilo burca possível pra ninguém ver meus indícios de masculinidadji e corri pro refeitório. Antes de entrar, fui ao orelhão da recepeção do convento e liguei pra Litta Walitta.

_ Quem incomoda?
_ Aim, vinhada! Isso é jeito de atender telefone?
_ Maddie?! Você viu que horas saum? Não é nem três da tarde!
_ Tenho um convite pra fazer, por isso que eu tô ligando.
_ Ai! Adógo convites! Que é? Que é?
_ Quer ir num funeral comigo?
_ ...
_ Alôin? Litta? Tá aí?
_ Não, péra. Você me acorda pra me convidar pra um funeral?
_ Aim... eu sei que o convite é meio uó, mas vou precisar das minhas amigas travestis. Vou até ligar pra Kilo Minhoca também...
_ Ai, gata! É claro que eu vou! Adógo ver um defunto! - fico passé compossé às vezes com que eu ouço. Liguei pra Kilo Minhoca.
_ Residência dos Bracho, Kilo Minhoca falando.
_ Xente, gueguéissu?
_ Maddie! Quanto tempo vinhada! Tô fazendo uns bicos passando roupa na casa de gente ryka! Não te contei?
_ Naum! Que babadu! Minha amiga virou doméstica!?
_ Gata, preciso pagar as contas e a vida na avenida tá muito concorrida. Aliás, tenho uma coisa babadíssima pra contar ao vivo!
_ Tô bege, mas enfim... eu já fui operadora de telemarketing, néam? Não posso falar nada... Gata, tô te ligando pra fazer um convite pra hoje. Quer ir num funeral comigo?
_ A loka! Ver gente morta?! Tô fora!
_ É aqui no convento, Kilo! A Litta virá. Preciso das minhas amigas travesti neste momento.
_ Ai, então eu vou, mas não vou ficar debruçada em caixão nenhum! Não gosto dessas coisas com gente morta.

Desliguei o telefone e entrei no refeitório. As irmãs tomavam o café da manhã enquanto a Irmã Cynar lia uma passagem bíblica em homenagem à Irmã 51. Enquanto eu caminhava até meu lugar, ouvi a mulherada cochichando Tadinha da Irmã Pirassununga; Tá toda árabe hoje; Tá de luto hoje, veja só. Se cobriu até a cabeça. Não, meu amô, é que eu tô toda peluda mesmo! Quem foi que roubou minha gilete, hein!? Alguém podem me dizer?! Eu quero minha gilete! Devolve a minha gilete! Tô com a perna peluda, sovaco masculino e barba na cara! Você acha que é legal ficar peluda numa sociedade guêi onde todo mundo é lisinho e saradinho!? Todas me encaravam com espanto.

_ Irmãs, não incomodem a Irmã Pirassununga hoje, por favor. - falou a Madre Absolute.
_ Éam! Não mexam com a travesti! Ela é perigosa!
_ Travesti? O que é isso?
_ Acho que é mulher que tem... tem...
_ Pinto! Caralho! Rola! Piroca! Pênis!
_ Ai, Jesus!
_ Delícia!
_ Irmã Pirassununga! Sente-se no seu lugar e coma seu café da manhã sem causar mais aborrecimento! Irmã Cynar, pode continuar a leitura, por favor! - berrou a Madre Absolute, já de pé dando xilique.
_ E Moisés pegou a piroca na mão e falou... ai... perdão! E Moisés...
_ Você ouviu o que ela falou!? Ela tem um caralho!
_ Gente... quanto tempo não sei o que é isso... um cacete na mão... Irmã Pirassununga, senta aqui do meu ladinho...
_ Sai pra lá, mulher. Eu gosto é de homem.
_ Não! Senta aqui, Irmã!
_ Aqui!
_ Aqui!
_ Aim, socorro! Não cheguem perto de mim! A minha neca está pra trás, tá?! Eu prendo a neca pra trás! - subi na mesa, levantei o hábito e mostrei a neca presa pra trás, formando a xaninha mais masculina do recinto. As irmãs olharam com espanto e a Madre Absolute esgasgou com o mingau.
_ Irmã Pirassununga! Retire-se pro seu quarto! Você precisa rezar muito para deixar passar o sentimento da perta de Irmã 51. Olha a situação que está causando entre as irmãs! Pode sair.
_ Eu nem tava com fome mesmo! Um beijo pra vocês!

Desci da mesa e passei pelas irmãs que iam virando a cabeça em minha direção. Ouvi o barulho dos pés afastando cadeiras. Olhei pra trás e vi uma irmã levantando. Já terminei. E veio andando na minha direção com o olhar sedento por pica. Anos de travestismo, meu amô. Reconheço o olhar de alguém que quer rola de longe! Outra irmã levantou à esquerda. Também terminei. O mesmo olhar de quero pica na minha direção. Mais uma levantou. E outra. E outra. Todas vindo em minha direção! Gritei socorro e sai correndo pro meu quarto com aquele monte de mulher correndo atrás de mim e a Madre Absolute gritando do fundo do refeitório pra todas sentarem. Entrei no quarto e tranquei a porta.

_ Abre a porta, Irmã Pirassununga! Mostra esse caralho pra gente!
_ Eu não abro não!
_ Você não pode morar pra sempre aí dentro!
_ Ah, mas eu não saio daqui nem por decreto!

Do lado de fora da janela que dava pro Largo São Bento, algum camelô colocou pra tocar Maria Magdalena da Sandra e ouvi vozes conhecidas.

_ Aim, adógo essa música!
_ É da minha época! - debrucei na janela e vi Litta Walitta, com um vestido feito só de pás de batedeira, e Kilo Minhoca dançando em volta de um círculo de curiosos.
_ Meninas! Socorro! Tão querendo a minha neca!

Continua...

(I'll Never Be) Maria Magdalena

Original Version
Extended Version
'93 Club Mix
'93 Radio Edit
'99 Remix

Hurt me and you'll understand...

Chupa meu edy com toda a breguice do seu ser:
Xente, eu acho que toda bilu que entende pelo menos um pouco de inglês PRECISA sentar e ler a porra da letra dessa música. Não tem o menor sentido at all! Uma loucura! Olha, eu achava que eu escrevia muita merda quando tô colocada, mas essa Sandra levou o prêmio! Bom, acho que Maria Magdalena não precisa de apresentações. Essa música é hit em qualquer festinha e todo mundo atóra balançar a cabeça pra lá e pra cá com ela! Podem se jogar na Original Version, mas o babadu é a Extended Version, com toda a glória dos anos 80. Em 93, remixaram Maria Magdalena novamente, mas ficou tão porco o serviço que é melhor a xente ignorar. A versão de 99 é uma regravação também muito da sem-vergonha. Certas coisas não deviam sair dos anos 80!

1 Bilus felizes:

Johan disse...

Thank you!

Alô?! Maddyrain chamando!

Você acaba de adentrar as entranhas do mundo de Maddyrain, uma profissional da "náiti guêi" de São Paulo que ama house music e decidiu fazer a boazinha e compartilhar parte de seu acervo musical.

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