Só o vício salva

Já dizia o poeta que meia-noite é quando o dia começa. Aliás, esse devia ser o lema de toda biluzinha chegada nas artes da vida noturna, néam? Esperei os sinos do Mosteiro de São Bento darem as doze badaladas e pulei do alto de meu beliche pro chão. Tadinho do Juvenal, mas bendito seja o dia em que ele decidiu pular do Viaduto Santa Ifigênia e deixar seu cantinho no comércio ambulante noturno aberto pra mim. Não tô ganhando rios de dinheiros vendendo creme anti-idade com porra de baleia, mas consigo comprar meu padê ilícito. Corri pro espelho pra ver se a barba tava aparada e levei um susto danado com a tossida da Irmã 51 na minha nuca.

_ Irmã Pirassununga, tô pra te perguntar um negócio faz tempo. Onde é que você vai toda noite, hein?
_ Xente! Ai que susto, Irmã 51! Você não tava dormindo? Volta pra cama, inferno!
_ Já tem um tempinho que estou acordada. Não sei explicar, mas estou me sentindo tão bem. Aliás, faz tempo que não me sinto tão bem. Queria conversar. Jogar ludo. Tomar uma pinginha. Faz tanto tempo que não tomo minha marvada.

Olhei pro rostinho magro e pálido da Irmã 51 quase implorando pela minha presença iluminada. Tadinha, andava tão doente. A sinfonia de tosse e catarro já tinha se tornado tão comum pra mim que nem me incomodava mais. Bom, acho que eu não ia morrer se perdesse uma noite de comércio pra bater um papo gostoso e descontraído com minha companheira de quarto. Puxei duas cadeiras de madeira e ajudei a bunita a se sentar numa delas. Peguei uma mesinha de dobrar no corredor e passamos a noite numa entrega completa aos nossos vícios: ela com sua pinga, eu com o narcótico proibido por leis brasileiras e vodka com Coca, tem coisa melhor?

_ Sabe, irmã, eu abri uma barraquinha de bugiganga ali no viaduto. Tô vendendo de tudo um pouco.
_ Mas e se a Madre Absolute descobrir?
_ Eu tô vendendo à noite, gata. Ela não tem como descobrir. A não ser que a senhora conte, néam? Não vem ferrar com meus negócios, hein? Você tá precisando sabe do que pra essa tosse?
_ Um milagre?
_ Naum! Um moderno aparador de pelos do nariz! Olha só como você tá ursina no nariz! Essa tosse toda é pelo de nariz nos pulmões! Vem cá, deixa eu te depilar.
_ Mas eu não estou com dinheiro pra comprar o aparador, Irmã Pirassununga.
_ Ah, esse fica por conta da casa. Depois é só lavar, colocar de novo na embalagem, passar o durex e tá novo e pronto pra ser revendido! Mas para de tossir, se não vou tirar pedaço do seu nariz fora!
_ Não consigo! coff coff... Essa tuberculose que não passa!
_ Mas como você pegou isso, meu amô?
_ Irmã... tem algo que preciso te contar. Eu busquei o convento depois que tive uma grande desilusão na minha vida. Eu era casada há 20 anos e descobri que meu marido me traia.
_ Ah, mas isso é tão comum hoje em dia, néam?
_ Pode até ser comum, irmã, mas eu não aceito infidelidade. Fugi de casa. Deixei as roupas dele no varal secando e fui embora sem olhar pra trás. Andei pelas ruas do Brás sem ter a quem recorrer. Meu maior medo era morrer de fome, sabe? Desnutrida como aquelas crianças da Somália. Tinha noites em que eu dormia na sarjeta e acordava desesperada, com um buraco na barriga de tanta fome. Precisa arranjar dinheiro de alguma forma, então apelei pra vida fácil.
_ Aim... parece que a vida de todo mundo desemboca na vida fácil, néam?
_ Pois é, mas não era assim tão fácil pra mim. Eu nunca gostei de fazer sexo com meu marido. Não sentia prazer e tão pouco simulava algum tipo de orgasmo. Talvez seja por isso que ele tenha me deixado...
_ "Talvez", gata? Se você não dá de comer pro bicho, ele vai comer na casa da vizinha!
_ Mas meu nojo era maior. Não conseguia esconder. Então, imagine como eu me sentia ao ir pra cama cada noite com alguém diferente. Tinha noites em que eu me deitava com mais de um homem diferente!
_ Aim, sei bem como é isso...
_ Quando finalmente acordei para a vida, talvez já era tarde demais. Eu vivia doente. Qualquer brisa me resfriava e eu levava muito tempo pra sarar. Comecei a ficar com algumas manchas na pele; as pernas não suportavam nem o meu frágil peso. Procurei ajuda médica. Foi o pior dia da minha vida. Preferia ter vivido na ignorância pra sempre, sem saber de nada!
_ Aim, gata...a senhora tem a tia SIDA?
_ Não, minha tia se chamava Aurora.
_ Irmã, você precisa aprender um pouco do linguajar da noite, sabe? Tia SIDA é a mesma coisa que AIDS.
_ Ah! Nossa, nunca que eu ia imaginar! Como são doidos vocês, da noite! Mas sim, você está certa, irmã. Sou soropositiva há anos. Procurei o mosteiro e larguei minha vida de pecado da carne desde então. Só que eu nunca consegui deixar o meu vício pela pinguinha santa de cada dia.
_ Irmã, certas coisas são pra sempre, néam? Mas eu já convivi com um ente querido que era aidético. Você pelo menos se cuida; toma os seus remédios. Ele, infelizmente, se entregou totalmente à doença. Morreu quase que como indigente. Xente, mas que clima down esse, hein? O gelo da minha vodka até derreteu! O cigarrinho apagou! Pera aí que vou pegar mais gelo na cozinha, gata.
_ Pera aí, irmã. Olha só como a noite está bonita hoje! Nossa! Fazia tanto tempo que eu não conseguia ficar acordada pra ver a noite! Que linda! Me ajuda aqui, irmã. Quero tomar um arzinho na janela. Nunca me senti tão viva na minha vida!
_ Aim, tá bonita mesmo! Será que eu tô perdendo muito cliente?
_ Irmã, desde quando você virou homem? Desculpa a pergunta, mas é algo que eu queria saber faz tempo.
_ Xente! Como é que você tá sabendo dos babadu todos?
_ Eu não sou cega, irmã. Nem surda. Vejo como você às vezes fica peluda. Percebi que já desistiu de depilar as pernas. Você fica melhor assim. E também escuto você reclamar que odeia ser uma mulher barbada. Que vai fugir pro circo. Irmã, também tenho que te contar uma coisa...
_ Aim, hoje é a noite das revelações, éam? Não é algo down, néam? Já tô sem gelo no copo!
_ Não, mas outra noite eu acordei e vi um volume muito... incomum... no meio das suas pernas. Foi aí que eu percebi que você não era... bom... mulher como eu.
_ Aim, que vergonça! Mas você contou pra alguém!?
_ Não! Seu segredo ficou salvo comigo. Pode ficar sossegada. Para mim, você sempre será a Irmã Pirassununga.
_ Aim, obrigada! Olha aquela estrela lá brilhando, que bunita! Aim, irmã, sabe eu também ando tão desanimada ultimamente, sabe? Desanimada com o meu jeitinho peculiar de ser, porque comigo é assim: ou é como eu quero ou não é, tá entendendo? E eu me afasto de tanta xente kérida por isso, porque acho que não sou capaz de aguentar os outros com suas particularidades. Cada um é de um jeito, mas tem jeitos que eu não consigo aguentar muito tempo. E eu nunca corro atrás de quem eu acho que deveria. Nem de quem eu realmente sinto falta. Sabe, quando esse ente querido que eu te contei morreu de AIDS, eu pensei "Xente, só se vive uma vez. Vou viver ao máximo!", mas às vezes eu acho que faço justamente o contrário, vivo ao mínimo. Vou deixando a vida me levar. Queria voltar ao passado, a um tempo em que eu era mais feliz e rodeada de amigos. Mas aí eu sei que quando chegasse no passado eu pensaria "Nossa, como eu sou infeliz aqui!". Tá entendendo essa coisa desagradável que é estar sempre descontente? Essa busca eterna por uma felicidade que tá dentro da xente, mas a xente não reconhece? O que você acha, irmã? Você acha que eu preciso me internar numa clínica de reabilitação de novo?

Mas a Irmã 51 nunca respondeu...

Wishing on a Star

7" Version
12" Mix
Jeep 12"
Magic Session Mix (bootleg?)
Magic Sessions Dub 1
Magic Sessions Vocal Dub

And I wish on all the rainbows that I see...

Chupa meu edy com carinho:
Xente, quem viveu a morte (que contradição!) da filha da Glória Perez põe o dedo no meu edy, que (nunca) vai fechar! Xente, foi na época da novela De Corpo e Alma, lembram? Wishing on a Star era o tema romântica da Daniella Perez com o assassino e, tadinha, acabou ficando com essa carga negativa pra sempre. Hoje em dia, eu conheço xente que não consegue nem chegar perto de Wishing on a Star. Eu atóron! Acho um ahazzo e, PASMEM, foi produziada pelo Tony Moran! Claro que não tem nada a ver com o clima dance bicha de sempre do Moran; tem toda uma pegada mela calcinha. Podem se jogar na 7" Version e relembrar o passado.

Os remixes foram feitos pelo grupinho Todd Terry, Masters at Work e Tony Humphries, mas pode segurar a sua pirikita no lugar, porque se você espera house de qualidade... bem... não é bem assim, néam? O 12" Mix é uma versão r'n'b que não empolga, mas é interessante e serve como lição pra aprender até que ponto podem chegar DJs de renome quando são mal pagos. O Jeep 12" é praticamente idêntico, então meu kool. Pra não ficar COMPLETAMENTE sem uma versão house, eles produziram o Magic Sessions Vocal Dub, que tá longe de ser uma obra-prima da house music. Num contexto geral, eu até gosto dessas versões Magic Sessions pra Wishing on a Star, mas enfim... já ouvi coisas melhores!

Maddyrain não tem, Maddyrain quer:
Aim, xente, já rodei todos os cantos da Internet e não encontrei os remixes abaixo em lugar nenhum! Um kool sem xuca total. Se alguém tiver, me manda, fazofavô?

magic sessions instrumental 9:55
tnt dub 9:40
amigo dub 6:14
kendog beats 6:40
acapella 3:50

2 Bilus felizes:

André disse...

Maddy, já ouviu o cover da Beyoncé pra essa música??? Ela veio no CD de remixes junto com o DVD do show de sua 1º Tour... Se quiser eu te mando... Beijão!

Maddyrain disse...

Aim, amore, eu já ouvi esse cover da SerOnça, mas confesso que não fez a minha cabeça, naum. Não tem toda aquela glória Daniela Perez de ser, sabe?

Um beijo,
Maddyrain

Alô?! Maddyrain chamando!

Você acaba de adentrar as entranhas do mundo de Maddyrain, uma profissional da "náiti guêi" de São Paulo que ama house music e decidiu fazer a boazinha e compartilhar parte de seu acervo musical.

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